Conte para mim o que você vê e eu andarei por nós,
olha por mim e eu te levo.
Porque perfeito só tudo junto,
só uma das mãos não faz o aplauso,
só uma boca jamais fará o beijo.
Roseli Behaker e Carolina Ignarra
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
segunda-feira, fevereiro 21, 2005
sexta-feira, fevereiro 18, 2005
Aquela Gota
O problema é abrir os olhos Jô, tão difícil como doloroso, mas alguém sempre nos lembra que é necessário vez ou outra... leva da vida tapa na cara, mas não perde o rebolado jamais!!
Ele disse: "Abra o olho"
Caiu aquela gota de colírio
Eu vi o espelho
Ele disse: "Abra o olho"
Eu perguntei como é que andava o mundo
Ele disse: "Abra o olho"
O telefone tocou
Soando como um grilo de verdade
Eu ouvi o grilo
O grilo cantando
Tava eu no mato de novo
No mato sem cachorro
Eu pensei: "Tá direito?"
Que eu nunca tive cachorro ao meu lado
Ele disse: "Abra o olho"
Eu disse "aberto", aí vi tudo longe
Ele disse: "Perto"
Eu disse: "Está certo"
Ele disse: "Está tudinho errado"
Eu falei: "Tá direito"
Tudo numa gota de colírio
Ele disse: "É delírio
Navegar nas águas de um espelho"
"Meu nego, abra o olho"
Ele disse: "Abra o olho"
Com aquela sua voz suave, amiga e franca
Eu falei "tá direito" de olho fechado e gritei:
"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"
Gilberto Gil
Ele disse: "Abra o olho"
Caiu aquela gota de colírio
Eu vi o espelho
Ele disse: "Abra o olho"
Eu perguntei como é que andava o mundo
Ele disse: "Abra o olho"
O telefone tocou
Soando como um grilo de verdade
Eu ouvi o grilo
O grilo cantando
Tava eu no mato de novo
No mato sem cachorro
Eu pensei: "Tá direito?"
Que eu nunca tive cachorro ao meu lado
Ele disse: "Abra o olho"
Eu disse "aberto", aí vi tudo longe
Ele disse: "Perto"
Eu disse: "Está certo"
Ele disse: "Está tudinho errado"
Eu falei: "Tá direito"
Tudo numa gota de colírio
Ele disse: "É delírio
Navegar nas águas de um espelho"
"Meu nego, abra o olho"
Ele disse: "Abra o olho"
Com aquela sua voz suave, amiga e franca
Eu falei "tá direito" de olho fechado e gritei:
"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"
Gilberto Gil
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Plantio de Amor Refeito
Essa é a mistura de uma música do Dominguinhos com palavras minhas...
Vem
Sara em mim essa dor
Essa falta de ti
Esse vazio de amor
Vem
Cerca o meu coração
Planta em mim essa dor
Me faz brotar seu calor
Vem
Semear o teu beijo
Vou colher teu desejo
Bom no roçado do peito
Vem
Vou afogar minhas mágoas
Em tuas profundas águas
Vou mergulhar em teu leito
Vem
Me esconde lá dentro
Na noite que é nossa
E me pega de jeito
Se és mar
Sou jangadeiro
Se és guerra
Sou lampião
Se és dança
Eu sou sanfoneiro
Se és xaxado
Sou baião
Se és Dor
Sou curandeiro
Se és Sol
Sou sertão
Se és meio
Sou inteiro
Se és Afeto
Sou Paixão
Vem
Sara em mim essa dor
Essa falta de ti
Esse vazio de amor
Vem
Cerca o meu coração
Planta em mim essa dor
Me faz brotar seu calor
Vem
Semear o teu beijo
Vou colher teu desejo
Bom no roçado do peito
Vem
Vou afogar minhas mágoas
Em tuas profundas águas
Vou mergulhar em teu leito
Vem
Me esconde lá dentro
Na noite que é nossa
E me pega de jeito
Se és mar
Sou jangadeiro
Se és guerra
Sou lampião
Se és dança
Eu sou sanfoneiro
Se és xaxado
Sou baião
Se és Dor
Sou curandeiro
Se és Sol
Sou sertão
Se és meio
Sou inteiro
Se és Afeto
Sou Paixão
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
O DIA DO MORTO
Mais uma do meu querido amigo Duda, cada dia me surpreende mais esse rapaz...
"Discutiu. Discursou solenemente sobre entes concebidos, fatos descabidos e atos distraídos. Quando optou, cansado, se calou.
E foi matar-se. Engraçado o fato de a morte tornar-se o grande atrativo de sua vida. Quando vivo, nada tinha de muito relevante a acrescentar.
Dirigiu-se à praia. Parou no meio do caminho, entre o mais longe e o mais curto. Pensou um pouco. Curioso o fato de pensar a beira da morte. Durante toda sua vida, o pensar fora sua grande prisão e, agora que estava decidido, talvez pela primeira e última vez, a agir sem pensar, pensava.
Pensou um pouco mais. Renegou os pensamentos de fraqueza, encheu os pulmões e resolveu que, para entregar-se ao abismo, aguardaria um convite.
Morreria devagar. Ponderou: se era para morrer, que fosse em local agradável. Não demorou a escolher o lugar perfeito.
Foi pra casa, a morte não pedia pressa.
Demorou-se em percorrer os corredores minúsculos, divagar sobre objetos obtusos e vagar por cômodos obscuros. Despediu-se do leito como quem não cria vínculos.
Chegando ao portão, parou. Remexendo os bolsos, achou algumas poucas notas e as contou. Poderia seguir adiante: a morte não custava caro, e o que possuía era suficiente para chegar ao abismo.
Chegou. Tomou um tempo justo para decidir o local exato da morte. Caminhou, olhou em volta. Deitou-se em frente a igreja, não por ser religioso, simplesmente a arquitetura o agradava. E sabia, comprovadamente, que se a morte durasse alguns dias a mais, poderia ver uma, duas, quem sabe três luas passarem.
Sentiu fome – a sede tinha se tornado coisa do passado.
Virou notícia deitado ali. Por três dias, foi tomado por invisível, depois indigente, indesejável, intransigente, insano, intelectual, indescritível e por fim, inapto a viver. Deixaram-no morrer.
Muitos vieram vê-lo: conhecidos, anônimos, curiosos e homônimos. Alguns fanáticos, acreditando ser ele algum tipo de messias, tentavam seguir seus passos, deitando ao seu lado e lá ficando, até que a fome ou as picadas de formigas os incomodavam tanto, que desistiam de morrer.
O vilarejo em que tudo aconteceu, anos depois, ainda era lembrado. E muitos, muitos anos depois, mitos, lendas e fábulas ainda jorravam de suas terras.
Fitava o céu, sempre. Dormia quando lhe convinha, abria os olhos ao despertar, fitava o céu e voltava a dormir, sem nunca mexer um músculo sequer. Permanecia inerte, mudo, quase surdo.
Definhava. Na primeira lua, já era praticamente pele e osso. E a morte passou a ser visível: a cada dia, hora ou – para os mais assíduos – minuto, notavam-se singelas mudanças em seu já deformado e pútrido corpo.
As beatas benziam-se, os bêbados, o respeitavam, mas eram as crianças quem mais pareciam compreender aquela morte estúpida. Davam vidas ao morto inventando estórias, espantavam os urubus, enfeitavam seu crânio com coroas de flores e espinhos. Ou simplesmente catarravam em seus ossos, rogando pragas e fazendo pilhérias.
Quando cresciam, esqueciam todas as vidas que o morto lhes dava e tentavam, em vão, entender o porquê do fascínio de seus filhos e netos por aqueles ossos velhos, fétidos e praticamente esquecidos.
Fizeram-no uma cerca e ergueram-lhe um busto, baseado em fotografias tiradas no início de sua jornada. Decretaram o dia do morto, feriado no vilarejo e ponto facultativo no restante do município. A escolha do dia – que simbolizaria o dia exato de sua morte - foi um tanto arbitrária, já que muitos acreditavam que, mesmo depois de passados dias sem ao menos uma piscadela, o morto continuava vivo.
E quando finalmente virou pó, o morto deixou de ouvir. "
26/01/05
"Discutiu. Discursou solenemente sobre entes concebidos, fatos descabidos e atos distraídos. Quando optou, cansado, se calou.
E foi matar-se. Engraçado o fato de a morte tornar-se o grande atrativo de sua vida. Quando vivo, nada tinha de muito relevante a acrescentar.
Dirigiu-se à praia. Parou no meio do caminho, entre o mais longe e o mais curto. Pensou um pouco. Curioso o fato de pensar a beira da morte. Durante toda sua vida, o pensar fora sua grande prisão e, agora que estava decidido, talvez pela primeira e última vez, a agir sem pensar, pensava.
Pensou um pouco mais. Renegou os pensamentos de fraqueza, encheu os pulmões e resolveu que, para entregar-se ao abismo, aguardaria um convite.
Morreria devagar. Ponderou: se era para morrer, que fosse em local agradável. Não demorou a escolher o lugar perfeito.
Foi pra casa, a morte não pedia pressa.
Demorou-se em percorrer os corredores minúsculos, divagar sobre objetos obtusos e vagar por cômodos obscuros. Despediu-se do leito como quem não cria vínculos.
Chegando ao portão, parou. Remexendo os bolsos, achou algumas poucas notas e as contou. Poderia seguir adiante: a morte não custava caro, e o que possuía era suficiente para chegar ao abismo.
Chegou. Tomou um tempo justo para decidir o local exato da morte. Caminhou, olhou em volta. Deitou-se em frente a igreja, não por ser religioso, simplesmente a arquitetura o agradava. E sabia, comprovadamente, que se a morte durasse alguns dias a mais, poderia ver uma, duas, quem sabe três luas passarem.
Sentiu fome – a sede tinha se tornado coisa do passado.
Virou notícia deitado ali. Por três dias, foi tomado por invisível, depois indigente, indesejável, intransigente, insano, intelectual, indescritível e por fim, inapto a viver. Deixaram-no morrer.
Muitos vieram vê-lo: conhecidos, anônimos, curiosos e homônimos. Alguns fanáticos, acreditando ser ele algum tipo de messias, tentavam seguir seus passos, deitando ao seu lado e lá ficando, até que a fome ou as picadas de formigas os incomodavam tanto, que desistiam de morrer.
O vilarejo em que tudo aconteceu, anos depois, ainda era lembrado. E muitos, muitos anos depois, mitos, lendas e fábulas ainda jorravam de suas terras.
Fitava o céu, sempre. Dormia quando lhe convinha, abria os olhos ao despertar, fitava o céu e voltava a dormir, sem nunca mexer um músculo sequer. Permanecia inerte, mudo, quase surdo.
Definhava. Na primeira lua, já era praticamente pele e osso. E a morte passou a ser visível: a cada dia, hora ou – para os mais assíduos – minuto, notavam-se singelas mudanças em seu já deformado e pútrido corpo.
As beatas benziam-se, os bêbados, o respeitavam, mas eram as crianças quem mais pareciam compreender aquela morte estúpida. Davam vidas ao morto inventando estórias, espantavam os urubus, enfeitavam seu crânio com coroas de flores e espinhos. Ou simplesmente catarravam em seus ossos, rogando pragas e fazendo pilhérias.
Quando cresciam, esqueciam todas as vidas que o morto lhes dava e tentavam, em vão, entender o porquê do fascínio de seus filhos e netos por aqueles ossos velhos, fétidos e praticamente esquecidos.
Fizeram-no uma cerca e ergueram-lhe um busto, baseado em fotografias tiradas no início de sua jornada. Decretaram o dia do morto, feriado no vilarejo e ponto facultativo no restante do município. A escolha do dia – que simbolizaria o dia exato de sua morte - foi um tanto arbitrária, já que muitos acreditavam que, mesmo depois de passados dias sem ao menos uma piscadela, o morto continuava vivo.
E quando finalmente virou pó, o morto deixou de ouvir. "
26/01/05
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