Perfeito para um dia cinza de chuva como hoje, saudades e melancolia:
"Ontem passei na galeria e comprei seu quadro de volta. Não era justo. Não é você que está naquela tela.
Não sei exatamente o que está errado, fiquei horas olhando para cada pedacinho do seu retrato e não te encontrei. Seus olhos estão lá, mas ao mesmo tempo não são seus olhos que eu vejo.
Seus braços estão e não estão lá. Seu corpo, as cores, tudo está certinho. Mas ainda não é você.
Acho que de tanto te ver parei de te olhar direito.
Agora que você está longe, me lembro de cada fio de cabelo, de cada brilho.
E de repente imagens suas aparecem no rosto de outras mulheres.
Foi ai que resolvi tirar seu quadro da galeria e refazê-lo sem você. Chamei outra modelo.
Vejo seus olhos pretos, inescrutáveis. Olhos de corvo. Aqueles olhos que de repente se abrem, infinitos, ou os olhos que transbordam toda a melancolia do mundo numa única lágrima, solta no tempo. Naquela boca, vejo a sua, pequena, um risquinho sumindo na palidez do seu rosto.
Vejo os dentes que rasgam o ar de tanto falar, ou os lábios que você puxa um pouquinho para o lado, quando está tentando mentir pra mim. Olhos para as mãos dela e só consigo ver as suas. Mãos leves, que dançam suspensas no ar, e que de repente ficam fortes, capazes de estrangular um passarinho sem que ele solte um gemido.
Olhos os cabelos dela e sei exatamente como são os seus.
Vejo o seu corpo no corpo dela. Vejo o seu jeito no jeito dela.
Olhando para ela, sinto sua falta, sinto sua ausência.
É como se a vida inteira eu estivesse ocupado em te esquecer.
E agora, conforme vou me lembrando, é que estou realmente conhecendo você.
O outono está chegando. Vou deixar a porta aberta para quando você resolver voltar."
Paulo Olivier
sexta-feira, julho 10, 2009
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2 comentários:
Quando escrevi este texto estava muito triste e solitário. Estava em Londres, longe da mulher que amava. Cada dia que passava seu rosto ia se apagando de minha mente, mesmo sem querer. Estavamos em 1990, não havia internet, msn, nada disso. As lembranças estavam nas fotos que carregava comigo dentro de uma agenda. Um dia no aeroporto de Heatrow, onde trabalhava eu perdi suas fotos, minha agenda. Fiquei louco, eram as únicas lembranças. Tudo estava perdido. Se passaram dois anos, voltei ao Brasil, ela não estava mais aqui. Havia voltado para Brasília e nunca mais nos encontramos.
Foi a partir dai que começei a escrever o Retrato, que vc pode ler no blog, a partir desta carta que escrevi e nunca foi entregue.
Olivie
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