da sua mente ao papel...
"Um homem, cansado, respira profundamente. Ao inspirar, percebe não apenas o ar, poluído, preenchendo seus pulmões. Nota, perplexo, que todo o mundo está agora em seu interior. Incrédulo, põe-se a caminhar.
Sozinho, no vazio, sente-se inexplicavelmente revigorado.
Pára, olha em volta. Uma ânsia repentina toma-lhe o corpo: vomita o próprio coração.
Alguns poucos gramas de músculo e veias e sangue palpitam no chão, bem diante de seus olhos. Toca o peito procurando entender como ainda permanece vivo.
Sem respostas, vagueia por seu novo domínio despreocupado se em algum momento cairá morto. Ainda está bem, mesmo não tendo um coração para pulsar seu sangue quente.
Inusitado o fato de não mais haver coisas e pessoas e lugares. Inconformado e um tanto incomodado tenta, em vão, vomitar algo palpável. Acredita que assim ficará mais confortável.
Percebe, surpreso, que sua incessante busca pelo silêncio terminara. Na verdade, sente que o silêncio o escolhera. Sente-se afortunado.
Escuta, sem pensar no tempo, o som do vácuo, por um longo tempo. Espera. Permanece mudo e imóvel... Desespera-se, precisa ouvir algum som.
Pensa em gritar, mas não o faz. O medo de não ouvir a própria voz lhe cala a alma.
Acalma-se. Respira fundo mais uma vez. O fato de não haver cheiro algum não causa espanto algum.
Não cheira, não fala, não ouve. Acostuma-se com a idéia.
Olha para as mãos, percorre os olhos pelo corpo. Constata que ainda está, ainda é. Apalpa-se e fica confuso ao tentar interpretar aquela não-sensação. Sabe que está lá, pode ver-se, mas não sente nada. Olha para os lados na inútil esperança de encontrar algo para testar seu tato. Lembra-se de que não há mais lados.
Olha pra baixo. Agacha-se tentando tocar o chão: não há chão. Vê-se flutuando no nada. Se não tivesse pensado no chão, talvez ainda o estivesse pisando.
Habitua-se à nova situação e relaxa, voa pelo não-lugar.
Por não haver fim, não sentir vento no rosto, não escutar zunido algum aos ouvidos, repara que na verdade não está em movimento. Está parado no nada.
Fecha os olhos e tenta imaginar o mundo como conhecia. Talvez seja tudo apenas uma questão de imaginação.
Não consegue mais abri-los: até a visão o abandonara.
Começa então a lembrar de sua vida. Pensa na infância, em como era bom despertar com o canto dos pássaros. Como gostava do tilintar das cordas do velho violão.
Todas as besteiras que disse e algumas pérolas que ficaram por dizer.
Pensa na fumaça do café. Não tomava café, mas o cheiro lhe dava um prazer enorme.
Lembra das mulheres com quem se deitou; todas, belas em suas peculiaridades. Os abraços carinhosos dos amigos também não foram esquecidos.
A noite sempre fora maravilhosa. Contemplava as estrelas e sempre que tentava entendê-las, fatigava-se. Aquela parede ficaria melhor de verde.
Pensa um pouco no tempo, mas não por muito tempo.
Como será a vida a partir de agora, a vida vivida no nada?
Pensa na morte. Pára de pensar".
Duda Marques
quarta-feira, setembro 22, 2004
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2 comentários:
deliciosamente compartilhando esta produção de pedaços artísticos... uso as palavras de meu avô poeta para dizer o que eu gostaria, e só posso dizer com meu corpo. as palavras são para vocês...
Reduzo
o espaço
ao limite
do zero
nasce
o mundo
Não se pede à alma
que anteceda o corpo
se o nada só existe
depois de ser concreto
Só das coisas reais
tenho o sentido
da transcendência
Não sei do homem mais
do que a essência
de ter vivido
Uma única
pétala
gera
um universo
de formas
em órbita
Tomo o ar
que respiro
e dou vida
as deuses
invento a sombra
Só na morte
ponho o zero
à esquerda
do zero
outro zero
começa.
João Apolinário
Joana
Agradeço e muito à sua colaboração jojo, não sabia que seu avô era poeta!! Cada um de nós se expressa de uma maneira dependendo do dia e da inspiração (e temos tantas ao mesmo tempo), nossa pluralidade é tão grande e as vezes deixamos de aproveitá-la... e não venha falar que vc não tem jeito com as palavras porque já ouvi belas pérolas suas, mesmo que tenham um ar de impressionismo alemão algumas vezes.
Seja sempre muito bem-vinda querida amiga, a casa é sua...
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